Por Marcelo Garcia
Como agir em relação à pobreza no campo? Esse debate estaria esquecido? A pobreza no campo é mais ácida do que a pobreza urbana, uma vez que as referências de serviços e programas são escassas e as informações oficiais são precárias ou inexistentes. Pobres e miseráveis do campo, lastimavelmente, estão marginalizados. Não foram incluídos na agenda nacional.
Quando se fala no meio rural, só o que se discute é a questão ambiental. Concordo que o assunto é de suma importância, mas penso que a mudança da nossa realidade social deveria, igualmente, ser compromisso de todos nós, incluindo os ecologistas de profissão e de carteirinha. É a partir dessa mudança que vamos construir alterações relevantes, inclusive na questão ambiental.
Atento ao debate sobre o meio ambiente, acredito que esse problema não deveria ser avaliado de forma isolada, como se estivesse divorciado das demais questões do país. A manutenção do divórcio é ruim, sobretudo para quem mais precisa da agenda de mudanças, ou seja, os pobres que vivem no campo e nas cidades.
Estamos em um país onde 23 milhões de pessoas vivem com fome, segundo dados da Organização das Nações Unidas, mas, infelizmente, tem ecologista que, a pretexto de defender o verde, está advogando a diminuição da produção de alimentos. Não podemos fazer esse tipo de campanha quando seria mais correto preservar a produção atual e, se possível, aumentar a oferta de arroz, feijão, carne e leite etc..
A exclusão social no meio rural é relativamente desconhecida e pouco estudada por ser mais difusa e menos visível que nos centros urbanos. Os problemas, no entanto, são graves e urgentes. No campo somos confrontados por uma realidade dura, onde persiste a evolução negativa da oferta de serviços sociais adequados. Ao isolamento das pessoas soma-se ainda a ausência de locais de encontro e de vida social, a escassez de habitação, entre inúmeras outras carências.
Temos de ter razão e sensibilidade para mudar a realidade. Devemos fazer o que estiver ao nosso alcance ao menos para dar fim à fome e à falta de serviços sociais. Em um cenário de pobreza e de indigência sabemos que todos sofrem demais, mas que são especialmente vulneráveis as crianças, os mais velhos e os doentes. Precisamos dos programas sociais do governo e de um esforço suplementar de solidariedade de todos para amenizar o sofrimento dos que dependem do Estado e do dinheiro dos impostos que todos nós pagamos.
O ponto de partida tem de ser: vamos alimentar quem passa fome. Precisamos de objetivos, funções definidas dos órgãos públicos, responsabilidades, prazos e metas. Na minha avaliação, é urgente que assim seja. O trabalho das nossas instituições é essencial; precisamos das famílias; precisamos do voluntariado e precisamos, sobretudo, da responsabilidade social de cada um de nós.
Para amenizar e reduzir a fome seria importante, além de aumentar e baratear o preço dos alimentos, realizar o debate nacional sobre a questão da pobreza com o mesmo ânimo e a mesma empolgação que usamos para defender o meio ambiente. Precisamos de militantes antipobreza que tenham a mesma ousadia, a criatividade e a coragem dos defensores do meio ambiente.
Temos de defender os pobres e o fim da sua contingência desfavorável de vida, com a mesma força que defendemos matas, rios e florestas. E a leitura da realidade do campo é mais que necessária. Podemos diminuir a jornada de trabalho no campo? Podemos reduzir a produção de alimentos? Acredito que o Brasil precisa de uma agenda ambiental, mas acho que passou da hora, e faz tempo que passou, de termos uma agenda social que inclua o compromisso de superar a pobreza tanto no campo quanto na cidade.
Uma política social digna desse nome até por imperativo constitucional deve incluir todas as áreas do país, ou seja, atender os pobres onde eles estiverem. Para isso, é preciso articulação persistente e ágil, especialmente na saúde e na educação, cujas batalhas nunca serão ganhas sem a participação plena do Estado em todos os graus de ensino e de aprendizagem.
Até quando vamos seguir usando venda nos olhos para permanecer nessa cegueira em relação à pobreza na área rural? Qual é nossa maior urgência? Eu fico com os pobres. Não acredito em agenda verde que não se preocupe com as pessoas. Minha crença e meu trabalho se dirigem primeiro às pessoas. O mundo não seria mundo sem elas.
* Marcelo Garcia é assistente social e presidente do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social. Também exerce função de Secretário Executivo do Instituto CNA.
** Artigo publicado no Jornal Correio Braziliense de 13/07/2009. |